Bhava – Biocosméticos Open Source

Quando iniciei o processo de conscientização sobre meus hábitos de consumo entrei em um caminho sem volta que eu não imaginava onde iria parar. Não parou ainda. Continua se aprofundando, muitas vezes em aspectos nos quais eu não havia pensado a princípio

Primeiro foi a fase da alimentação, que aliás continua até hoje porque estar consciente não é o suficiente para mudar hábitos tão profundamente arraigados. Depois foi a época dos absorventes ecológicos e do coletor menstrual, esses absolutamente inseridos na rotina, há anos. Teve também a febre das feiras de trocas, participei de muitas até chegar na Feira Grátis, que realizo agora. E no último ano a pesquisa foi no campo dos produtos de limpeza e higiene pessoal.

Inicialmente comecei a buscar marcas alternativas, com menos ingredientes nocivos, o mais naturais possíveis, que não fazem teste em animais, etc. Depois de um tempo comecei a sentir a necessidade de fazer eu mesma alguns produtos. Fiz a oficina “A Faxina Ecológica”, realizada pela querida Gabriela Ventapane, e desde então venho produzindo a maior parte dos produtos de limpeza que utilizamos em casa. Também aprendi a fazer pasta de dente, desodorante, repelente e o que ainda compro, sempre busco a melhor procedência.

 

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Gabriela Ventapane com a produção da oficina Faxina Ecológica

 

Comecei esse ano com o firme propósito de me aprofundar nesses experimentos e aprender a fazer novos produtos e nos últimos dias eu comecei a pensar em produzir aromatizadores com óleos essenciais de verdade, naturais e com efeitos terapêuticos. As sincronicidades da vida são tão incríveis que, antes mesmo que eu começasse a pesquisar as receitas, apareceu na minha linha do tempo a públicação de um casal de amigos que está lançando a Bhava, uma marca de biocosméticos totalmente Open Source!

Sabe o que isso significa?

Segundo a wikipedia:

“Código aberto, ou open source em inglês, é um modelo de desenvolvimento que promove um licenciamento livre para o design ou esquematização de um produto, e a redistribuição universal desse design ou esquema, dando a possibilidade para que qualquer um consulte, examine ou modifique o produto.”

Nesse caso isso quer dizer que todas as receitas, de todos os produtos que eles vendem estão disponíveis para que você possa prepará-los quando e onde quiser.

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Não sabe onde comprar os ingredientes? A lista de todos os fornecedores com os respectivos contatos está disponível também.

E as embalagens? Também tem os fornecedores de todas as embalagens. E tem a arte gráfica dos rótulos autoadesivos e das tags também.

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Você pode produzir cada um dos ítens na sua casa, com a marca e tudo. E vender, se quiser. Gente, será que só eu acho isso tão sensacional?

Você deve estar pensando: por que eles fariam isso? O que ganham em troca? Eles não tem medo que outras pessoas roubem seus clientes? Ou que os próprios clientes passem a manipular seus produtos e deixem de comprar deles? Eles estão predendo oportunidades de ganhar dinheiro!

Não, eles não tem medo. Esse casal, como eu, aprendeu a confiar na abundância. No paradigma da abundância não há porque ter medo. Ao contrário do que a sociedade nos ensinou a vida inteira, acreditamos que há o suficiente para todos. Como já dizia Gandhi, “No mundo há o suficiente para atender à necessidade de todos, o que não há é o suficiente para a cobiça de alguns…”

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Em primeiro lugar eles estão lançando uma marca, portanto vendem os produtos e, acreditem, a grande maioria das pessoas prefere comprar do que ter todo o trabalho de fazer. Mas mesmo essas pessoas gostam da sensação de intimidade, de conhecer o produto, de saber como ele é feito e saber que, se elas quiserem, elas podem fazê-lo.

E a concorrência? Bem, nós não acreditamos nesse conceito também. Outros produtores de biocosméticos estão convidados a testar as receitas, aperfeiçoá-las as ou criar novas e compartilhar. E assim as possibilidades se multiplicam exponencialmente. Para todos.

Eles Também dão cursos de biocosmético pelo Brasil, recebendo os custos da viagem e contribuições livres e conscientes. Mesmo tendo todas as receitas disponíveis, quem não gostaria de aprender pessoalmente com esses dois, que lançaram esse conceito incrível?!

Contribuições também podem vir de quem decide produzir e vender com a marca, mas apenas se, quando e quanto cada pessoa quiser. E de quem simplesmente simpatiza com aideia e quer ver esse conceito fortalecido.

Mas o que eles mais ganham, de verdade, é o prazer de fazer o que gostam, na ecovila deliciosa onde moram, sem relógios de ponto, sem medo da concorrência, sem metas de vendas e com muito amor.

“Bháva (भाव em Sânscrito)

Condição que confere poder às nossas realizações.
A entrega no fazer.
Exultar-se com o que se faz é uma das características do bháva.

Bháva condiz com a emoção de se ouvir uma determinada música ou assistir a um belo filme, contemplar um pôr-do-sol ou as estrelas no firmamento.

Significa praticar sem expectativas de resultado, simplesmente pela arte em si, como a força de vida presente na Natureza, atuando na mecânica do Universo.”

Eu lhe pergunto: você ainda acha que eles perdem algo? 😉

 

1ª Feira Grátis da Gratidão de Serra Grande

O Sarau Serra Viva é o evento mais divertido e gostoso (inclusive no sentido gastronômico) de Serra Grande. Acontece todo segundo sábado do mês e é o dia que todo mundo sai da toca e se encontra na praça. Desde que me mudei, participei do primeiro Sarau como degustadora, do segundo como expositora e neste último, além de expor, eu decidi fazer uma Feira Grátis da Gratidão, uma iniciativa que conheci no Rio de Janeiro, em 2013, sobre a qual já escrevi aqui, que parece uma feira de trocas onde não é necessário trocar, você leva o que quiser, ou nada, e pega o que quiser, ou nada. Simples assim.
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Eu adoro todos os formatos de feiras de trocas, considero elas uma das pequenas peças fundamentais na desconstrução da lógica consumista que alicerça nossa sociedade. Em tempos em que os recursos naturais do planeta vem sendo consumidos a uma velocidade alarmante, as pequenas resistências cotidianas à agressiva criação de demanda de consumo por parte da indústria não são modismo ou excentricidade, mas experimentações de vias alternativas de existência. Feiras de trocas provocam à reflexão sobre o que é realmente necessário, tanto na escolha do que iremos levar pra trocar, quanto na escolha do que iremos pegar em troca e ao mesmo tempo desmistificam a obrigatoriedade do dinheiro envolvido na satisfação das nossas necessidades.
Mas as feiras grátis vão além. São uma experiência de total desapego, por parte de quem doa, que o faz sem expectativa de receber algo em troca, pode acontecer ou não, e de legítima gratidão, por parte de quem recebe, que não precisa ter levado nada, embora receber sempre desperte nas pessoas o desejo de dar, e muitas acabam improvisando ou perguntando como fazem para contribuir na próxima. Esses dois sentimentos tão poderosos juntos criam uma atmosfera única, onde pequenas mágicas acontecem..
Não que esse formato seja uma novidade, muitas ecovilas possuem uma lojinha onde você pode deixar ou pegar o que quiser. Eu mesma já fui salva do gélido verão escocês pela Boutique, em Findhorn. Talvez por isso tenha surgido meu desejo de compartilhar essa experiência, para que outras pessoas possam sentir o prazer de encontrar algo que precisam, a abundância manifestada. Mesmo não sendo novidade, não é algo comum no Brasil e ainda desperta imensa surpresa na maioria das pessoas.
Fiz pela primeira vez na Virada Sustentável, em São Paulo, em setembro de 2015, e desde que cheguei aqui, no mês seguinte, senti vontade de fazer o mesmo no Sarau. Não foi difícil colocar a ideia em prática. Eu já havia separado algumas peças de roupas e outros itens para doação, durante a arrumação da mudança, Kaiuá separou vários livros, convidei um grupo de amigos pelo whatsapp e em poucos minutos várias pessoas se prontificaram a ajudar.
Cheguei pra montar a banca e logo chegou a querida Cínthia com um reforço de roupas e um monte de peças para bebês e brinquedos.  Marina e Beto vieram um pouco mais tarde, pra renovar a banca com duas mala lotadas de roupas femininas e masculinas, além de um monte de fraldas de pano que foram um tremendo sucesso!
abundância
O primeiro ítem doado foi para uma menininha que deve ter uns dois anos. Passou, viu a boneca e ficou gritando neném, neném! A mãe não entendeu muito bem ficou um pouco constrangida quando dissemos que era de graça. O constrangimento é uma reação comum no início. É muito fora do nosso repertório de crenças ganhar algo de um desconhecido sem dar nada em troca.
Pouco depois apareceu um garotinho que deixou três livros e só depois foi ver se havia algo que ele queria. As crianças demonstram aceitar essas propostas com muita naturalidade. Um outro menino, um pouco mais velho, veio me dizer que havia gostado de um livro, mas que não queria acumular coisas em casa, perguntou se podia levar e devolver no próximo Sarau. Perfeito. Entenderam tudo!
Aos poucos as pessoas chegavam, curiosas, algumas perguntavam quanto custava uma coisa ou outra, a expressão de surpresa sempre se repetia quando confirmávamos que era de graça, cada uma mais divertida que a outra!
Não caberiam aqui todas as histórias que ouvi naquela noite, nem os muitos agradecimentos que recebi, mas eu não poderia deixar de registrar e compartilhar com vocês os momentos que mais me marcaram. Sinto que eu sou quem mais tem a agradecer por ter presenciado toda essa energia estagnada entrando em movimento e sendo direcionada para onde ela é realmente necessária.
bem vindo
Teve a mulher que disse que levaria só a ideia e tirou várias fotos das plaquinhas. Ela achou a iniciativa incrível, mas disse se sentir constrangida demais para pegar algo sem dar nada em troca!
Teve o rapaz que usava só uma canga enrolada na cintura, veio trazido pelo amigo que insistia que ele precisava de uma roupa. Ele olhou, olhou e disse: sabe, eu não preciso de nada! E saiu sorrindo!
E teve outro que ficou tão feliz com duas bermudas e uma camiseta que me deu um beijinho! Calma gente, era de côco! 🙂
Teve a moça que, andarilha como eu, nem queria olhar as coisas, pois não quer carregar peso, mas precisava da parte de baixo de um bikini. Veio olhar a mala e encontrou várias, pôde escolher!
E a outra que ficou encantada em ganhar a cartucheira e me deu um pedaço de pizza, depois pegou uma sandália e me disse que eram as duas coisas que ela mais precisava no mundo. O sorriso que se abriu no rosto dela não tem preço!
E as fraldas de pano da Marina! Ah, essas fraldas! Fizeram cinco mamães felizes, inclusive uma futura mamãe que ganhou o primeiro presente do seu bebê!
Além da pizza e do beijinho, ganhei bolo e biscoito de amendoim. Foi minha vez de ficar constrangida. Eu não fiz a banca pensando em receber nada em troca. Mas a comida me foi ofertada com tanta boa vontade e eu estava com fome, achei que seria contraditório de minha parte não aceitar, afinal era a minha necessidade sendo atendida sem a necessidade de pagar.
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Tem quem não goste da iniciativa, tem quem diga que eu sou boba e deveria vender esses produtos pra ganhar um dinheiro ou doar ra uma instituição “que realmente esteja precisando”.  O que eu digo pra essas pessoas? Me desculpem, mas parece que vocês não entenderam nada…
Não, eu não espero salvar o mundo fazendo feirinhas, não seria tão ingênua assim… Mas acredito nas pequenas ações que põe em cheque nossas crenças agindo por contágio positivo nas pessoas do nosso convívio. Pouco a pouco mudamos crenças, mudando crenças mudamos mundos…
ps: No momento estamos sem equipamento fotográfico, por isso não registramos nossa feira. As fotos utilizadas nesse artigo foram abundantemente compartilhadas por realizadores da Feira-grátis da Gratidão de todo o Brasil. Se você é autor de uma das fatos, por favor, me envie seu nome para que eu possa colocar os créditos! 🙂