1ª Feira Grátis da Gratidão de Serra Grande

O Sarau Serra Viva é o evento mais divertido e gostoso (inclusive no sentido gastronômico) de Serra Grande. Acontece todo segundo sábado do mês e é o dia que todo mundo sai da toca e se encontra na praça. Desde que me mudei, participei do primeiro Sarau como degustadora, do segundo como expositora e neste último, além de expor, eu decidi fazer uma Feira Grátis da Gratidão, uma iniciativa que conheci no Rio de Janeiro, em 2013, sobre a qual já escrevi aqui, que parece uma feira de trocas onde não é necessário trocar, você leva o que quiser, ou nada, e pega o que quiser, ou nada. Simples assim.
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Eu adoro todos os formatos de feiras de trocas, considero elas uma das pequenas peças fundamentais na desconstrução da lógica consumista que alicerça nossa sociedade. Em tempos em que os recursos naturais do planeta vem sendo consumidos a uma velocidade alarmante, as pequenas resistências cotidianas à agressiva criação de demanda de consumo por parte da indústria não são modismo ou excentricidade, mas experimentações de vias alternativas de existência. Feiras de trocas provocam à reflexão sobre o que é realmente necessário, tanto na escolha do que iremos levar pra trocar, quanto na escolha do que iremos pegar em troca e ao mesmo tempo desmistificam a obrigatoriedade do dinheiro envolvido na satisfação das nossas necessidades.
Mas as feiras grátis vão além. São uma experiência de total desapego, por parte de quem doa, que o faz sem expectativa de receber algo em troca, pode acontecer ou não, e de legítima gratidão, por parte de quem recebe, que não precisa ter levado nada, embora receber sempre desperte nas pessoas o desejo de dar, e muitas acabam improvisando ou perguntando como fazem para contribuir na próxima. Esses dois sentimentos tão poderosos juntos criam uma atmosfera única, onde pequenas mágicas acontecem..
Não que esse formato seja uma novidade, muitas ecovilas possuem uma lojinha onde você pode deixar ou pegar o que quiser. Eu mesma já fui salva do gélido verão escocês pela Boutique, em Findhorn. Talvez por isso tenha surgido meu desejo de compartilhar essa experiência, para que outras pessoas possam sentir o prazer de encontrar algo que precisam, a abundância manifestada. Mesmo não sendo novidade, não é algo comum no Brasil e ainda desperta imensa surpresa na maioria das pessoas.
Fiz pela primeira vez na Virada Sustentável, em São Paulo, em setembro de 2015, e desde que cheguei aqui, no mês seguinte, senti vontade de fazer o mesmo no Sarau. Não foi difícil colocar a ideia em prática. Eu já havia separado algumas peças de roupas e outros itens para doação, durante a arrumação da mudança, Kaiuá separou vários livros, convidei um grupo de amigos pelo whatsapp e em poucos minutos várias pessoas se prontificaram a ajudar.
Cheguei pra montar a banca e logo chegou a querida Cínthia com um reforço de roupas e um monte de peças para bebês e brinquedos.  Marina e Beto vieram um pouco mais tarde, pra renovar a banca com duas mala lotadas de roupas femininas e masculinas, além de um monte de fraldas de pano que foram um tremendo sucesso!
abundância
O primeiro ítem doado foi para uma menininha que deve ter uns dois anos. Passou, viu a boneca e ficou gritando neném, neném! A mãe não entendeu muito bem ficou um pouco constrangida quando dissemos que era de graça. O constrangimento é uma reação comum no início. É muito fora do nosso repertório de crenças ganhar algo de um desconhecido sem dar nada em troca.
Pouco depois apareceu um garotinho que deixou três livros e só depois foi ver se havia algo que ele queria. As crianças demonstram aceitar essas propostas com muita naturalidade. Um outro menino, um pouco mais velho, veio me dizer que havia gostado de um livro, mas que não queria acumular coisas em casa, perguntou se podia levar e devolver no próximo Sarau. Perfeito. Entenderam tudo!
Aos poucos as pessoas chegavam, curiosas, algumas perguntavam quanto custava uma coisa ou outra, a expressão de surpresa sempre se repetia quando confirmávamos que era de graça, cada uma mais divertida que a outra!
Não caberiam aqui todas as histórias que ouvi naquela noite, nem os muitos agradecimentos que recebi, mas eu não poderia deixar de registrar e compartilhar com vocês os momentos que mais me marcaram. Sinto que eu sou quem mais tem a agradecer por ter presenciado toda essa energia estagnada entrando em movimento e sendo direcionada para onde ela é realmente necessária.
bem vindo
Teve a mulher que disse que levaria só a ideia e tirou várias fotos das plaquinhas. Ela achou a iniciativa incrível, mas disse se sentir constrangida demais para pegar algo sem dar nada em troca!
Teve o rapaz que usava só uma canga enrolada na cintura, veio trazido pelo amigo que insistia que ele precisava de uma roupa. Ele olhou, olhou e disse: sabe, eu não preciso de nada! E saiu sorrindo!
E teve outro que ficou tão feliz com duas bermudas e uma camiseta que me deu um beijinho! Calma gente, era de côco! 🙂
Teve a moça que, andarilha como eu, nem queria olhar as coisas, pois não quer carregar peso, mas precisava da parte de baixo de um bikini. Veio olhar a mala e encontrou várias, pôde escolher!
E a outra que ficou encantada em ganhar a cartucheira e me deu um pedaço de pizza, depois pegou uma sandália e me disse que eram as duas coisas que ela mais precisava no mundo. O sorriso que se abriu no rosto dela não tem preço!
E as fraldas de pano da Marina! Ah, essas fraldas! Fizeram cinco mamães felizes, inclusive uma futura mamãe que ganhou o primeiro presente do seu bebê!
Além da pizza e do beijinho, ganhei bolo e biscoito de amendoim. Foi minha vez de ficar constrangida. Eu não fiz a banca pensando em receber nada em troca. Mas a comida me foi ofertada com tanta boa vontade e eu estava com fome, achei que seria contraditório de minha parte não aceitar, afinal era a minha necessidade sendo atendida sem a necessidade de pagar.
images
Tem quem não goste da iniciativa, tem quem diga que eu sou boba e deveria vender esses produtos pra ganhar um dinheiro ou doar ra uma instituição “que realmente esteja precisando”.  O que eu digo pra essas pessoas? Me desculpem, mas parece que vocês não entenderam nada…
Não, eu não espero salvar o mundo fazendo feirinhas, não seria tão ingênua assim… Mas acredito nas pequenas ações que põe em cheque nossas crenças agindo por contágio positivo nas pessoas do nosso convívio. Pouco a pouco mudamos crenças, mudando crenças mudamos mundos…
ps: No momento estamos sem equipamento fotográfico, por isso não registramos nossa feira. As fotos utilizadas nesse artigo foram abundantemente compartilhadas por realizadores da Feira-grátis da Gratidão de todo o Brasil. Se você é autor de uma das fatos, por favor, me envie seu nome para que eu possa colocar os créditos! 🙂

3 thoughts on “1ª Feira Grátis da Gratidão de Serra Grande

  1. Kamala, adorei sua iniciativa muito boa mesmo, é este tipo de ação que faz a diferença neste mundo, AMEI

  2. Querida Kamala, confesso q ainda nao tinha parado para ler todo post embora essa intençao estivesse sempre na minha mente. Hj consegui! Amei a iniciativa e fico muito feliz de vc ter trazido para Serra Grande. Sinto uma imensa gratidão e vontade de colaborar. Vou me organizar para o proximo sarau. Grande bj

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