VI ENGA – Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia

Entre os dias 12 e 16 de novembro tivemos mais um momento de reconhecer a nós mesmos e ao outro nessa caminhada para uma mudança de paradigma. Mudança essa no âmbito social, econômico, ambiental e cultural. Esse foi o VI Encontro Nacional de Grupos de Agroecologia (ENGA). Para sua construção foi necessário um constante e duradouro contato entre os grupos que pertencem a REGA (Rede de Grupos de Agroecologia). Membros de diferentes coletivos e localidades construíram juntos esse belo encontro na Ecovila Tibá em São Carlos. Durante esses dias estiveram presentes mais de 90 grupos que trabalham com conceitos de Agroecologia e nos ocupamos nesse breve tempo em trocar, aprender, articular e plantar. O ato de plantar não apenas literal, com a semente da planta, se deu também no âmbito dos sonhos. Essa com certeza foi uma grande oportunidade de ver pessoas que têm trabalhado para construir esse movimento, saber de grupos que têm interesses em comum e como podemos caminhar juntos daqui em diante. Buscando um encontro diverso e completo, a organização das oficinas que seriam dadas no encontro foi feita através das pétalas da Permacultura, que englobam diversos campos de atuação para a construção de uma nova sociedade.

Isso nos mostra não apenas um pensamento holístico, mas um grande passo nesse movimento por integrar diversas vertentes que buscam trabalhar de uma nova forma com a terra e com a Vida como um todo. Isso se evidencia na própria organização com base em conceitos da Permacultura, além de haverem oficinas sobre bombas de sementes, que foram desenvolvidas na Agricultura Natural pelo Fukuoka; Agricultura Biodinâmica, CSA (Comunnity Supported Agriculture) e Pedagogia Social que são expressões da Antroposofia, criada por Rudolf Steiner; e muitas outros espaços de troca que tratavam dos mais diversos temas e origens, culminando numa articulação aberta, acolhedora e não sectária.

Essas filosofias e buscas não se restringiram apenas a campos teóricos, mas buscou-se vivenciar suas expressões práticas ao longo do encontro. Exemplos disso são os sabonetes, condicionadores, shampoos e o pó dental que foram todos feitos no encontro, com produtos que não causassem impacto ambiental, para a utilização de todos. Os banheiros foram todos secos buscando-se não poluir as águas com nossos dejetos. Ao longo da preparação do evento foi construída uma cisterna para armazenar água da chuva a ser utilizada nos banhos e pias ao longo do encontro. Os culturais trouxeram forte a nossa cultura, valorizando a arte regional. As comidas foram conseguidas através de pequenos agricultores, cooperativas, grupos, sendo grande parte agroecológicas. Aconteceu um Enguinha para cuidar e educar participativamente as crianças presentes. Todas atividades para a manutenção do encontro foram organizadas através de mutirões que foram compostos pelos participantes, fazendo com que cada um fosse parte essencial, co-criador do processo. E a famosa feira de sementes esteve presente novamente com muitas trocas de experiências e sementes!

Por fim houve um espaço de plenária, onde foram deliberados novos passos para a REGA e um processo de avaliação do encontro para melhorarmos cada vez mais. Interessante notar que apesar do recorrente calor das relações que costumam predominar em encontros de movimentos alternativos, que é essencial para relações mais humanas, há pessoas construindo essa rede que têm trazido uma necessária estruturação dos processos para essa articulação e criação coletiva. Estão sendo utilizadas dinâmicas de grupo como o Dragon Dreaming, por exemplo, que auxiliam no caminhar para um saudável equilíbrio entre criatividade e organização.

Para ir-nos despedindo por aqui, a Permacultura nos diz que estamos numa sociedade com alto consumo energético (petróleo, competição, etc) e que isso é insustentável, não é possível ser permanente. Essa forma de vivermos, segundo essa perspectiva, não resistirá muito mais tempo e colapsará, obrigando-nos a criar uma forma de vida com baixo custo energético (energias renováveis, formas de organização cooperativas, etc). Para essa transição, é importante estarmos trabalhando em nossas localidades através dos nossos grupos de permacultura, agroecologia, antroposofia, pedagogas alternativas, povos tradicionais, etc. Além disso, é essencial nos articularmos em rede. Assim, faço o convite de quem se interessar, integrar a REGA para conversar-nos e construir esse movimento conjuntamente. Como teia somos mais fortes.

Texto: Paulo R.A. Lencioni – Facilitador de Processos Sociais

Fotos:  Mariana Pontes Campos

Para maiores informações:

– Carta de sistematização do VI ENGA

Site da REGA

– Facebook da REGA

CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura

O CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) é uma forma de organização de consumo baseada no conceito de escultura social e na idéia de economia associativa do Rudolf Steiner. No CSA um grupo de pessoas paga uma mensalidade fixa para os agricultores, que recebem um salário fixo mensal pra cuidar de sua lavoura e fornecem uma cota de produtos orgânicos semanalmente para os associados. Dessa forma são eliminados os atravessadores, os produtores recebem uma renda segura e digna e os consumidores recebem produtos orgânicos de qualidade, da época, por valores acessíveis. Uma legítima relação ganha-ganha.

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O maior núcleo de CSA do país encontra-se em Botucatu – SP e é organizado pelo Hermann Pohlmann, artista plástico e professor Waldorf. O grupo conta com a participação de 350 famílias, que pagam atualmente R$72 mensais por uma cota, o que dá direito a 7 itens por semana ou R$130 por duas cotas, com direito a 14 ítens semanalmente, e uma família de 12 agricultores que recebem cerca de R$1200 cada um. Há também cotas de pães e queijo, a parte. Um núcleo é formado por um grupo de consumidores e produtores, juntos os núcleos formam uma rede.

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Diferente das redes de entrega de cestas de orgânicos, os consumidores retiram seus produtos em depósitos, que são vários pra cada núcleo. Os depósitos são coordenados pelos produtores e pelos consumidores, que não recebem um valor monetário por isso. Cada pessoa verifica em um quadro quais são os produtos da semana, escolhe, pesa e leva sua cota. O processo é baseado na confiança e na auto-organização.

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Uma das visões de Herman para potencializar o equilíbrio social da comunidade de consumo nos próximos anos é que os cotistas possam pagar valores diferenciados de acordo com suas possibilidades financeiras. Embora esse conceito pareça muito inovador (e quase utópico), já é colocado em prática em outros movimentos onde é conhecido como Contribuição Consciente.

Se você se interessou e gostaria de começar um CSA na sua cidade, entre em contato com CSA Brasil e verifique a agenda de cursos.