Solitude

Subimos a trilha em silêncio. Dentro de mim eu duvidava um pouco que o lugar certo iria me escolher. Na verdade, eu duvidava que fosse perceber qual lugar havia me escolhido. Sabia em qual área queria ficar, o que já era ótimo, mas tinha em mente uns três ou quatro pontos possíveis. Uma coisa era certa: eu não queria disputar território com ninguém!

Entramos em nossa área e o primeiro ponto, que não era um dos “meus”, foi desejado por três pessoas. Houve um pequeno impasse, que rapidamente se resolveu. O segundo ponto era um dos que eu via como possível, mas não era o que me parecia mais interessante. As outras pessoas devem ter pensado o mesmo, pois ninguém manifestou interesse. Nesse momento não tive dúvidas, se ninguém o queria seria o meu.

Me afastei do pequeno grupo. Todos me acenavam sorridentes, com ar de encorajamento. Eu também sorria e não precisava ser encorajada. Me aproximei lentamente da grande árvore que marcava o ponto. Ouvi um movimento nas folhas e olhei a tempo de ver o grande Teiú que guardava aquele território. O sorriso alargou-se em meu rosto, não poderia haver melhor presságio!

Passando das pedras que cercavam o jardim, como uma muralha naturalmente posta, pude ver o riacho e o pequeno bosque de bonsais. Eu estava em um reino em miniatura, onde o Teiú era o Dragão que o protegia e os vaga-lumes os pequenos seres alados que o encantavam. Meu grande receio para aquela noite, ficar sem água para beber, já não tinha porquê. Havia água suficiente para todo o tempo que fosse necessário. E limpa! Saudei ás águas e pedi sua proteção. Pronto. Eu estava em casa.

Sem pressa abri a lona que seria meu único abrigo aquela noite. Eu havia escolhido o nível dois do desafio, pois achei que não teria graça nenhuma dormir na barraca que pra mim é uma zona de muito conforto. Desenrolei o isolante, o saco de dormir e guardei a mochila. Gastei mais algum tempo reconhecendo o terreno. Meditei, cantei, dancei…

Já totalmente a vontade, decidi ler a mensagem da carta que havia sido retirada repetidamente por cinco membros do grupo. Tomei um susto! As cartas do caminho sagrado contam uma história que quase sempre é bastante representativa e simbólica para quem as tira. Tomei um susto! A morte do Xamã descrevia o angustiante sonho que eu havia tido alguns dias antes. Como se não fosse suficiente parecia antecipar a experiência que me esperava aquela noite. Renascimento.

Intrigada deitei para refletir sobre o assunto e fui tomada por uma sonolência incontrolável ( no dia seguinte soube que muitas pessoas sentiram o mesmo). Eu não entendi de onde vinha tanto sono, pois ainda era dia, mas decidi me entregar assim mesmo, era uma boa oportunidade de testar como eu me sentiria dentro da lona, envelopada em plástico preto, como um cadáver.

Nem tive tempo de ficar claustrofóbica, apaguei instantaneamente! Quando acordei me dei conta que eu estava babando! Isso nunca acontece comigo, o sono devia mesmo ter sido muito profundo. Saí da Lona e apreciei o ar fresco da noite. Eu esperava ver a lua nascer, mas percebi que o céu estava nublado. Meditei, cantei, dancei… Deitei de novo pensando no caminho que havia me levado até alí, no desafio que o John Croft havia me feito (um capítulo a parte que eu contarei em breve), nas coisas que eu já sabia que precisava fazer diferente e no que viria a partir daquele ponto.

Vi a luz da lua se insinuando entre as folhas dás árvores e decidi sair um pouquinho do meu lugar pra vê-la melhor. Estava linda, dourada, mas não ficaria no céu por muito tempo, ou melhor, até ficaria, mas seria impossível enxergá-la quando em breve, pois as nuvens logo acima dela estavam carregada de chuva! Sim, chuva! Iria chover muito e eu na lona…

Na verdade eu até queria que chovesse, queria testar como me sairia diante do desafio. Mas lembrei que duas pessoas não haviam levado barraca, nem lona e passariam um grande aperto se a chuva viesse. Pedi aos céus que segurassem a onda. Parece que não me ouviram…

Eu decidi entrar na lona mais uma vez. Queria testar como eu me sairia lá dentro, estando acordada. Bem a tempo! Fechei dois segundos antes de caírem os primeiros pingos de chuva! E aqueles eram só os primeiro! Como caiu forte aquela chuva! Os trovões ecoavam ao redor do vale, os raios iluminava até mesmo dentro da lona negra! Por alguns momentos me senti frágil. Sabia que estar tão perto do Rio não era a melhor opção em uma tempestade. Além do declive do terreno, que levava toda a água pra cima de mim, eu conhecia a força de uma tromba d’água!

Ser levada pela água não foi meu maior receio. No meio daquela tempestade de raios eu me dei conta que não sabia lidar com eles! Qual era a melhor opção naquele momento? Sair de baixo da árvore? Sair de perto da água? Se um raio cair na árvore, estando eu deitada embaixo dela, eu levo “choque”? Na dúvida fechei os olhos e dormi pensando naqueles que não levaram nenhuma proteção…

Passei a noite toda perambulando por algum plano paralelo, algo entre dormir e estar acordada, qualquer coisa entre sonhar e pensar. Eu não sei como explicar aquilo, mas quem já viveu uma experiência semelhante vai saber do que estou falando. Não estava consciente, nem consegui lembrar de muita coisa ao acordar no dia seguinte, mas tive a nítida sensação de que passara a noite “resolvendo coisas”.

O dia amanheceu limpo e ensolarado. A mata , em toda a sua exuberância, exibia mil tons de verde, agradecida pela água que, finalmente, viera matar a sua sede, sede das plantas, sede da terra. Meditei, cantei, dancei… Estava feliz, plena e agradecida. É impressionante como as coisas simples, como passar uma noite sozinha na mata, nos fazem ver a beleza da vida. Eu estava confiante e pronta pra seguir em frente. Um novo ciclo começava, mais uma volta na espiral ascendente da vida, me sentia totalmente renovada. Morte do Xamã…

 

Em tempo: durante a experiência o Kaiuá estava quentinho e seguro na casa de um grande amigo. 🙂